quarta-feira, 1 de julho de 2015

Reacionarismo

Os brucutus da ditadura gostavam de posar de civis. Agora, civis eleitos democraticamente posam de brucutus

EUGÊNIO BUCCI
30/06/2015 - 08h00 - Atualizado 30/06/2015 08h00
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Na terça-feira, dia 16, um homem fardado, com insígnias e condecorações, presidiu os trabalhos da Câmara dos Deputados, em Brasília, por quase duas horas. Era o deputado Capitão Augusto (PR-SP), para quem o golpe de Estado de 1964 não foi um crime, mas uma “revolução democrática”.

A fotografia do parlamentar paramentado de policial militar comandando o Poder Legislativo ganhou destaque em jornais e nas redes sociais. Não era para menos. Ali está um retrato do nosso tempo, um tempo cinza-escuro, como a farda da PM que ele envergava, um tempo sombrio, plúmbeo, em que as forças mais reacionárias e obscurantistas pisoteiam com seu coturno estulto os símbolos da democracia e da liberdade.

Que a indumentária da repressão policial tome assento na presidência da Câmara é uma agressão simbólica chocante. Até mesmo os militares golpistas que tomaram o poder de assalto em 1964 tinham o cuidado de tirar o quepe do Exército e vestir um terno civil enquanto usurpavam a Presidência da República. Não tinham boa formação moral e cívica, mas pelo menos tinham senso de ridículo. Queriam disfarçar um pouco a agressão que perpetraram contra a nação. Em traje “passeio completo”, tentavam desanuviar a carranca. Como não tinham sido eleitos como civis, e sabiam disso muito bem, posavam como se fossem civis. Eram brucutus fantasiados de gente civilizada.

Agora, seus adoradores anacrônicos, para quem o golpe “livrou o Brasil do comunismo”, são eleitos como gente civilizada e adoram posar de brucutus. Talvez não incorram em falta de decoro, mas certamente abusam da falta de educação.

O pior é que isso rende voto e popularidade. Não nos esqueçamos de que, vira e mexe, uns tipos vão às ruas pedir “intervenção militar”, numa escancarada apologia do crime. O discurso autoritário anda em alta e surfa na onda cor de chumbo. Não se trata apenas de conservadorismo, mas de reacionarismo bestificante, um reacionarismo que está presente não apenas na política, mas em praticamente todos os campos da vida social.

No campo dos costumes, por exemplo, as falanges reacionárias nunca estiveram tão “saidinhas”. Dias antes de um casacão da PM presidir a sessão da Câmara, outro grupo de parlamentares, na mesma instituição, desfraldou faixas e cartazes para protestar contra a Parada Gay e a Marcha da Maconha. A primeira é muito famosa. Uma vez por ano, reúne milhões de manifestantes para defender os direitos dos homossexuais. A Marcha da Maconha não tem a mesma visibilidade. É um protesto ainda desconhecido que pleiteia a descriminalização da droga que lhe dá nome. Pois bem, aquele grupo de deputados federais sisudos não gosta disso e quer deixar bem claro que não gosta nada disso.

Empertigados como espantalhos no milharal, eles se perfilaram e posaram para os fotógrafos como se fossem salvar o Brasil, agora não mais do comunismo, mas da devassidão. Fizeram suas melhores (ou piores) caras de indignação para denunciar a existência de dinheiro público dando suporte à Parada Gay, como se isso fosse um disparate. Na opinião deles, pelo que deram a entender, o dinheiro público é um dinheiro exclusivamente heterossexual.

A partir do estranho axioma, os deputados sexualmente indignados não se vexaram de, sendo assalariados pelo dinheiro público e ocupando o plenário financiado pelo dinheiro público, usar seu tempo de trabalho, evidentemente pago pelo dinheiro público, para discriminar os gays, que, por serem gays e por quererem se afirmar gays, não teriam direito, segundo os nobres deputados, de ter acesso a serviços públicos pagos também pelo dinheiro público. Segundo a bancada espada, o dinheiro público pode financiar manifestações de heterossexuais severos e austeros, mas não pode emprestar segurança pública e outros serviços públicos às passeatas de homossexuais sorridentes.

Isso não é só conservadorismo. É reacionarismo abrutalhado, quer suprimir a liberdade não apenas da vida pública, mas principalmente da vida íntima. O reacionarismo não admite que cada um busque o prazer do modo que bem desejar. Quer tiranizar a vontade individual, quer castrar o desejo, quer aplainar as diferenças. O reacionarismo quer que todo mundo seja igual exatamente naquilo em que temos o direito de ser diferentes – e quer que todos continuem diferentes naquilo em que deveríamos ser iguais: não quer que tenhamos o direito de ser iguais perante a lei e o Estado.

O reacionarismo é cinza-escuro, embora não resista à tentação gozosa de se emperiquitar, todo espetadinho de broches aos quais prefere dar o nome de medalhas. 

sábado, 27 de junho de 2015

terça-feira, 23 de Junho de 2015 Carta de uma palestino-brasileira a Gil e Caetano Soraya Misleh, de São Paulo (SP)Queridos Caetano e Gil,Tenho 46 anos de idade. Como muitos da minha idade e geração, cresci ouvindo suas belas músicas. Mas, infelizmente como poucos da minha idade e geração, também cresci ouvindo histórias de um povo muito generoso, hospitaleiro, que cuidava de sua terra com muito amor, até que um dia foi expulso dali, violentamente. Estou falando do povo palestino, das minhas raízes. Sou brasileira de origem palestina. Meu pai tinha apenas 13 anos de idade quando, juntamente com toda a família e cerca de 800 mil palestinos, foi obrigado a deixar sua terra para um exílio – e refúgio – que já dura 67 anos. Minha mãe também é filha de palestino.Caetano, é por isso que leio com tristeza sua resposta a Roger Waters, em que afirma: “Eu me lembro que Israel foi um lugar de esperança.” Israel se fundou sobre um projeto deliberado de limpeza étnica do povo palestino, para constituição de um Estado homogêneo, exclusivamente judeu. O que há de lugar de esperança nisso? Até então, na Palestina, vivia uma minoria judaica, além de cristãos, muçulmanos e pessoas não religiosas. Meu pai conta que, quando era criança, judeus, cristãos e muçulmanos brincavam juntos, sem rótulos. Isso não é possível com apartheid. Nunca tivemos qualquer problema com judeus. Somos contra o projeto sionista – não contra judeus. Assim como o mundo se posicionou contra o apartheid na África do Sul e os horrores do Holocausto sob nazismo, nosso pedido é que se posicionem contra o sionismo. Gil, diferentemente do que afirmou à imprensa, não há nada de democrático em um Estado com essa natureza.Muitas das músicas de vocês, que trazem tanta poesia à nossa vida, servem para embalar também a nostalgia de uma terra para a qual os palestinos expulsos em 1948 estão impedidos de retornar, onde cabia todo mundo. “Felicidade foi se embora/ E a saudade no meu peito ainda mora (...)/ A minha casa fica lá de trás do mundo/ onde eu vou em um segundo quando começo a cantar/ O pensamento parece uma coisa à toa/ mas como é que a gente voa quando começa a pensar.”De lá para cá, Israel expulsou em 1967 mais milhares de palestinos. Hoje, são 5 milhões vivendo em campos de refugiados. Ao longo de todo esse período, a situação não tem melhorado. Pelo contrário, com o incremento da colonização, muitos palestinos continuam sendo expulsos de suas terras. Assim, com base no direito internacional e tendo como referência o apartheid que perdurou até os anos 1990 na África do Sul, o Tribunal Russell sobre Palestina declarou em 2011 que Israel é um Estado de apartheid institucionalizado (leiam aqui, por favor:https://goo.gl/nL3UKR). Há leis racistas e discriminatórias contra os palestinos, que são desumanizados cotidianamente.As nossas famílias foram separadas e apenas em 2010 pude pisar pela primeira vez na terra em que meu pai nasceu. Tive a emoção de conhecer o único irmão de meu pai ainda vivo e uma enorme e amorosa quantidade de primos. Tenho, por justiça, lutado para denunciar a ocupação e o apartheid israelenses há anos e estou engajada na campanha de BDS a Israel – um chamado da sociedade civil palestina até que os direitos humanos fundamentais lhe sejam garantidos.Pela minha origem e por esse crime – o crime de fazer valer o direito à liberdade de expressão e manifestação no Brasil por que vocês tanto lutaram –, não pude mais rever minha família. Em 2011, fui impedida de entrar na Palestina, após um calvário de interrogatórios, revistas e intimidação de mais de dez horas (calvário esse que todos os brasileiros-palestinos passam quando vão visitar seus familiares). Neste ano, em março, participei do Fórum Social Mundial em Túnis, na Tunísia, e construímos, como parte do processo por um mundo mais justo, uma missão humanitária à Palestina ocupada. A missão foi devidamente negociada junto ao governo brasileiro e as autoridades israelenses e mesmo assim, foi negada a entrada a mim e a outro brasileiro, Mohamad El Kadri – dos 16 integrantes, os dois únicos com pais e avôs árabes. Como ficou demonstrado, o apartheid começa já na fronteira israelense.Lembro-me que em 2010 encontrei-me com Nita Freire, viúva do educador Paulo Freire, que me contou que Paulo Freire recusou-se a participar de uma atividade numa universidade israelense que falaria sobre diálogo. Paulo Freire recusou-se por entender que parte dos interlocutores do suposto diálogo não poderia estar presente, diante do apartheid. Disse que estaria à disposição no momento em que de fato essa situação se transformasse.Como infelizmente ainda não chegou este momento, peço a vocês: cancelem o show em Israel. Os palestinos, fãs da sua música, não poderão estar presentes – eles não podem transitar livremente. Se eu quisesse ver o show de vocês em Tel Aviv, não poderia. Israel afirmou que sou “ameaça a sua segurança” e estou banida de visitar meus familiares e a terra de meus ancestrais por cinco anos. Não sou terrorista, sou um ser humano que luta por justiça.Gil, ouvi você cantar “Imagine” no Fórum Social Mundial em Túnis, Tunísia, em 2013. Esse outro mundo que você tão bem cantou, trazendo a lembrança de John Lennon, não é possível enquanto aceitarmos como normal o apartheid a que está submetido o povo palestino.Mantenho a esperança de contar com a mensagem inestimável de vocês ao mundo, por justiça, igualdade e liberdade. E deixo aqui as palavras do poeta palestino Mahmoud Darwish: “Nós, palestinos, sofremos de um mal incurável que se chama esperança. Esperança de libertação e de independência. Esperança de uma vida normal, na qual não seremos nem heróis nem vítimas. Esperança de ver nossas crianças irem à escola sem riscos. Para uma mulher grávida, esperança de dar à luz um bebê vivo, num hospital, e não uma criança morta diante de um posto de controle militar. Esperança de que nossos poetas verão a beleza da cor vermelha nas rosas e não no sangue. Esperança de que esta terra reencontrará seu nome original: terra de amor e de paz. Obrigado por carregar conosco o fardo dessa esperança.”Obrigada, Gil e Caetano!

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Querido pastor, por Gregorio Duvivier

Da Folha
Gregorio Duvivier
Querido pastor,
Aqui quem fala é Jesus. Não costumo falar assim, diretamente -mas é que você não tem entendido minhas indiretas. Imagino que já tenha ouvido falar em mim -já que se intitula cristão. Durante um tempo achei que falasse de outro Jesus -talvez do DJ que namorava a Madonna- ou de outro Cristo -aquele que embrulha prédios pra presente- já que nunca recebi um centavo do dinheiro que você coleta em meu nome (nem quero receber, muito obrigado). Às vezes parece que você não me conhece.
Caso queira me conhecer mais, saiu uma biografia bem bacana a meu respeito. Chama-se Bíblia. Já está à venda nas melhores casas do ramo. Sei que você não gosta muito de ler, então pode pular todo o Velho Testamento. Só apareço na segunda temporada.
Se você ler direitinho vai perceber, pastor-deputado, que eu sou de esquerda. Tem uma hora do livro em que isso fica bastante claro (atenção: SPOILER), quando um jovem rico quer ser meu amigo. Digo que, para se juntar a mim, ele tem que doar tudo para os pobres. "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus".
Analisando a sua conta bancária, percebo que o senhor talvez não esteja familiarizado com um camelo ou com o buraco de uma agulha. Vou esclarecer a metáfora. Um camelo é 3.000 vezes maior do que o buraco de uma agulha. Sou mais socialista que Marx, Engels e Bakunin -esse bando de esquerda-caviar. Sou da esquerda-roots, esquerda-pé-no-chão, esquerda-mujica. Distribuo pão e multiplico peixe -só depois é que ensino a pescar.
Se não quiser ler o livro, não tem problema. Basta olhar as imagens. Passei a vida descalço, pastor. Nunca fiz a barba. Eu abraçava leproso. E na época não existia álcool gel.
Fui crucificado com ladrões e disse, com todas as letras (Mateus, Lucas, todos estão de prova), que elestambém iriam para o paraíso. Você acha mesmo que eu seria a favor da redução da maioridade penal?
Soube que vocês estão me esperando voltar à terra. Más notícias, pastor. Já voltei algumas vezes. Vocês é que não perceberam. Na Idade Média, voltei prostituta e cristãos me queimaram. Depois voltei negro e fui escravizado -os mesmos cristãos afirmavam que eu não tinha alma. Recentemente voltei transexual e morri espancado. Peço, por favor, que preste mais atenção à sua volta. Uma dica: olha para baixo. Agora mesmo, devo estar apanhando -de gente que segue o senhor.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

A Bíblia contra o macaco

por Nirlando Beirão — publicado 07/06/2015 09h04, última modificação 11/06/2015 19h00
Começava, 90 anos atrás, o tribunal da intolerância, com Darwin no banco de réus. A América mudou alguma coisa?


Bettmann/Corbis
Clarence-Darrow
Em Dayton, Darrow tenta disseminar a virtude da dúvida
Dayton, Tennessee, era, 90 anos atrás, um povoado de 1,8 mil almas fervorosamente assistidas por nove igrejas e um punhado de iracundos pregadores dispostos a irrigar seu rebanho com a crença de uma superioridade moral baseada na adesão incondicional à Palavra de Deus. 
Espreguiçando-se “num vale sorridente”, como anotou H. L. Mencken, Dayton trazia em si aquele charme rural, aprazível, que disfarçava uma estufa de superstições, preconceitos e hipocrisia capaz de explodir em ódio contra quem quer que rejeite a autoridade literal da Bíblia e de seus porta-vozes. Um vilarejo, observou Mencken, no qual não havia salão de dança ou de jogo e onde o esporte mais praticado era o rezar. “A oração tem o poder de realizar muita coisa”, ironizou Mencken. “Pode curar diabetes, encontrar carteiras perdidas e proteger as esposas das agressões dos maridos.”
O processo instaurado no dia 25 de maio de 1925 contra um professor de Ciência de 24 anos da Rhea County High School, que tendia perigosamente a desacreditar a narrativa do Gênesis e a contestar que a terra é plana e infestada de espíritos do mal, teria passado despercebido como um daqueles episódios típicos de uma América puritana, racista, ignorante, se não fosse pelo simbolismo que o julgamento ganhou e pela concentração decelebrities que Dayton, casta e pura, de repente acolheu.
Dayton-Tennessee
Os fundamentalistas de Dayton: do anonimato ao deboche
Para pontificar na defesa de John T. Scopes, cujos óculos de aros acadêmicos prenunciavam um sinistro liberal, acorreu Clarence Darrow, o carismático criminalista identificado com as causas progressistas e humanitárias, que tinha no currículo a defesa de negros, sindicalistas e homossexuais – ou seja, na versão da caipirada local, o Belzebu em pessoa.
Para exacerbar a acusação, recrutou-se outro figurão de prestígio, William Jennings Bryan, que, após três frustradas tentativas de chegar à Presidência dos Estados Unidos por um Partido Democrata ainda muito distante do engajamento social de Franklin Delano Roosevelt, tinha se convertido ao mais descabelado fundamentalismo religioso, insuflando pelo país afora multidões de crédulos com o timbre catastrófico de profeta do Apocalipse. Para Bryan, seria um acerto de contas com Darrow – “aquele ateu e agnóstico” – que vivia ridicularizando seu fanatismo.
Uma enxurrada de jornalistas também inundou Dayton com seu elenco de estrelas, a começar por aquele H. L. Mencken, que botou a serviço do Baltimore Evening Sun a sua verve embebida em sarcasmo – mas que, ao final de 11 dias de suarenta batalha forense, num ambiente que lembrava apropriadamente a fornalha do Inferno, permitiu-se brindar Bryan não mais com o artifício do deboche, e sim com a santa indignação que quem testemunhou no acusador um desfile de “imbecilidades peculiares” e de “insensatez teológica”. “Chegou herói, saiu bufão”, apostrofou o jornalista.
Foi Mencken, aliás, quem batizou aquela “orgia religiosa” (palavras dele) de The Monkey Trial (O Julgamento do Macaco) – uma vez que ficou óbvio que ali não se tratava de julgar um iniciante professor do curso secundário e, sim, de condenar Charles Darwin in absentia, a Teoria da Evolução, a Origem das Espécies, 65 anos depois de sua publicação – na concepção primária e abjeta dos fundamentalistas, punir na figura de um mestre-escola, aquela ideia de que “o homem vem do macaco”, que não foi esculpido do barro, 6 mil anos atrás, pela mão de uma divindade barbuda e quase sempre vingativa.
Nesse contexto, o infiel Scopes saiu do foco do debate e das câmeras, assim como o próprio juiz John T. Raulston, um magistrado medíocre que se juntou sem constrangimento ao coro de Hosanah dos acusadores, cerceando a defesa e deixando claro que a sentença estava decretada antes mesmo do julgamento. O apelo midiático do The Monkey Trial, na verdade, estava na coreográfica esgrima entre Darrow e Bryan, dois astros dos tribunais, Bryan empenhado em denunciar o solerte ataque dos inimigos da fé, Darrow previamente convencido de que as pérolas de sua reconhecida eloquência seriam recebidas por aquela plateia de caipiras como se ele as despejasse – Mencken comparou – em tubulações de esgoto no Afeganistão. Mas Darrow tinha uma causa a defender – e mesmo a sua previsível derrota no covil provinciano haveria de expor fora dali o ridículo hediondo da intolerância e do fundamentalismo.
John-Scopes
Scopes, o acusado, saiu do foco
coup de théâtre do “velho diabo” – old devil, tal como Darrow passou para a posteridade – aconteceu na tarde de 20 de julho, que precederia a sentença já sabida. “A defesa deseja chamar o senhor Bryan como testemunha.” A frase ecoou como um petardo na sala. Perplexidade do juiz, constrangimento da defesa. William Jennings Bryan, o Savonarola de Dayton, resigna-se a subir à tribuna. Clarence Darrow acerca-se. “O senhor tem um considerável conhecimento sobre a Bíblia, não tem, Mr. Bryan?” Bryan vacilou: “É, tenho tentado”. “Não tenho dúvidas a esse respeito”, respondeu Darrow. “Cinquenta anos”, eu acho, disse Bryan.
O massacre iria durar duas horas. O senhor acredita que Jonas foi engolido por uma baleia? Se foi, quanto tempo ele ficou na barriga dela? O senhor acredita que Josué fez o Sol parar no céu? Se fez, não teria acontecido alguma coisa à Terra? Qual é a idade da Terra, senhor Bryan? O senhor crê que o mundo foi criado em seis dias? – e assim o sulfuroso Darrow saiu cutucando um confuso Bryan, cuja única resposta passou a ser um irritado e genérico “eu acredito na Bíblia, Mr. Darrow”. Os enviados da imprensa gargalhavam.
Os vencedores acabaram ficando com o mico. A repercussão mundial do julgamento inibiu a ofensiva criacionista que do Tennessee ameaçava se alastrar pelo Deep South – Geórgia, Alabama, Mississippi. John T. Scopes foi condenado pela heresia de pregar a ciência, não o dogma, mas um agora envergonhado juiz Raulston reduziu a multa a 100 dólares – que organizações de direitos civis trataram de pagar. Scopes mudou-se para Chicago, onde ganhou uma bolsa para estudar Geologia. Só em 1967 a Corte Suprema do Tennessee baniu a lei antievolução. William Bryan não teve como saborear o duvidoso triunfo: morreu seis dias após a sentença, de ataque cardíaco.
Noventa anos depois, nos EUA do Tea Party, de Sarah Palin, dos televangelistas carolas da Fox News e das infindáveis seitas de cristãos born again, tem muita gente que, assim como aqueles jecas de Dayton, vive o dilema Bíblia vs. o macaco. Com cega adesão à Bíblia.
Darrow-Bryan
Darrow e Bryan, em momento de trégua, esgrimiam diferenças agudas

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Recado ao Pastor Silas Malafaia

Se vai boicotar O Boticário, deixe de lado também Facebook e Apple
Gil Alessi, El País
O primeiro passo é sair do Facebook. Sim, se você quer boicotar empresas que defendem direitos dos homossexuais vai ter que deixar a rede social de lado. Ela é uma das 379 empresas que assinaram um documento entregue à Suprema Corte dos Estados Unidos em março pedindo o fim da proibição do casamento gay. Não procure a lista das signatárias no Google: o buscador mais popular da Internet também está entre elas. Deixar de usar produtos da O Boticário, que lançou na semana passada uma campanha do Dia dos Namorados com casais homossexuais trocando presentes, parece fácil comparado a abandonar a sua timeline e ficar sem os likes.
O vídeo da marca de cosméticos, com pouco mais de 30 segundos, foi ao ar na TV aberta e no canal da empresa no YouTube. Alguns internautas criticaram as cenas de afeto - um abraço - entre casais gays, e pediram um boicote à marca. O Boticário reagiu divulgando uma nota onde afirma que a campanha busca "abordar com respeito e sensibilidade a ressonância atual sobre as mais diferentes formas de amor. Independente de idade, raça, gênero ou orientação sexual".
Então se você optou por boicotar o Facebook, ainda pode contar com Twitter certo? Errado. O microblog também assinou o documento entregue à Suprema Corte. Bom, que tal deixar as redes sociais de lado um pouco e descontrair jogando videogames? Se você quer boicotar as companhias pró-LGBTs, fique longe da franquia Fifa e da série The Sims, já que a Eletronic Arts, responsável pelos produtos, é a favor do casamento igualitário. Mas quem precisa de videogames na era dos smartphones? A não ser que você tenha um iPhone ou um celular com sistema operacional Android ou um Windows Phone. Neste caso, se livre dos aparelhos: Apple (o presidente da empresa, Tim Cook, é gay assumido) e Microsoft também assinaram a carta, e o Android é da Google.
Para o boicotador de verdade, calças Levis e produtos da Nike também estão vetados. Inclusive aquela camisa da seleção brasileira que vez ou outra sai do armário para ir a manifestações contra a corrupção e contra o Governo. Acostume-se também ao sabor dos refrigerantes Dolly: tanto a Coca-Cola quanto a Pepsico, fabricante da Pepsi, assinaram a lista. O café no Starbucks e o sorvete da Ben & Jerrys também terão que ser deixados de lado. E nem pense em pagar nada disso com seu cartão de crédito Visa ou do Citibank.
Viajar para a Disneylândia também não pode: a empresa responsável por Mickey & companhia é signatária do documento. Mesmo se não fosse, o boicotador sério jamais poderia ir para o mundo da fantasia a bordo de um avião da United Airlines, Delta ou American Airlines: todas apoiam o casamento gay. E nunca a passagem de avião pode ser adquirida com desconto no site de compras coletivas Groupon. Se deixar de consumir todas estas marcas parecer triste e der vontade de chorar, não seque as lágrimas com lenços de papel Kleenex: a fabricante deles, Kimberly-Clarck, também é a favor do casamento gay.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Eleitor questiona governo Luiz Henrique 12 de maio de 2015 0 1 “BOA TARDE, SENHORES JORNALISTAS ! ! ! A Imprensa procura sempre ocultar as responsabilidades políticas da má administração pública de Santa Catarina. Como cidadão, não consigo entender tanta louvação ao Senador Luiz Henrique da Silveira. Que ele receba o nosso respeito como cidadão, assim como todos os milhões de catarinenses. Mas, apesar de tantos anos em cargos políticos, sinceramente, não sei dizer para meus amigos de outros estados o que ele realmente construiu. Ele foi bom em que? Tudo o que depende do Governo do Estado de Santa Catarina funciona sofrivelmente. E a degeneração do estado pela inação administrativa seguiu sua trajetória no governo Raimundo Colombo. E antes de que levantem perguntas, a administração fraca teve início antes de Luiz Henrique, é claro. Mas por que ele não consertou o que estava errado? Na prática, qual foi a utilidade da sua política de descentralização? ———————— Apenas como exemplo emblemático, vejam o estado de nossas pontes. A Hercílio Luz continua em ritmo de desabamento, há dezenas de anos. Apesar disso, são muitas as denúncias de verbas perdidas na corrosão pela maresia. E muito dinheiro do povo deve ter chegado para a ponte no governo Luiz Henrique. E nunca ninguém se preocupou em rastrear essas verbas. Como governador, ele não poderia ficar de fora dessa responsabilidade. O mesmo acontece para Raimundo Colombo. E as dua pontes consideradas novas já apresentam sinais graves de desgaste sem qualquer intervenção dos governadores, mesmo com as inferências judiciais. ———————— E a coisa vai muito longe. Então, fica o desafio aos jornalistas: _Por favor, mostrem para o povo o que o Luiz Henrique da Silveira fez objetivamente de bom, antes de que ele vire santo no altar. No Brasil, com todo o respeito aos que se foram, é costume transformar políticos e artistas mortos em heróis, sem que tenham reais méritos. Não vale citar a administração básica do básico. Ninguém deveria ser exaltado por cumprir apenas suas tarefas essenciais. Quem é realmente bom, deixa boas obras, deixa marcas, deixa invenções úteis. Até agora, só tenho escutado na imprensa que ele foi um “conciliador”. O que significa isso? Quantos cargos ele teve que criar às nossas custas para ser chamado de “conciliador”? No que ele se sobressaiu para receber tantas homenagens? Tanto poder político, na prática, serviu exatamente para que? Qual o benefício do povo? —————————————– A minha mensagem resumida é de que a Imprensa leve ao povo a VERDADE. E confirmo que não tenho qualquer interesse partidário nem eleitoreiro. Não sou “oposição” nem “situação”. Mas sou um eleitor e pago os mais altos impostos do planeta Terra. Obrigado pelo espaço! Luiz Silveira, do Jardim Atlântico.”

sábado, 2 de maio de 2015

Não sou um deputado da Idade Média", diz Marco Feliciano ao falar sobre política, sexo e religião em Camboriú

02 de maio de 20150

Foto: Marcos Porto
Foto: Marcos Porto

Em meio à imensa lista de pastores que fazem parte do programa do Congresso de Gideões Missionários, em Camboriú, nenhum nome é tão emblemático quanto o do deputado federal Marco Feliciano (PSC). Representante da ala mais conservadora do Congresso Nacional, o pastor que fala à multidão de evangélicos defende posições polêmicas como a redução da maioridade penal, afirma-se contra o casamento homoafetivo e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo e se diz representante de uma parte do eleitorado brasileiro que não tem voz “porque trabalha muito”.
Feliciano, que se apresenta neste sábado no palco dos Gideões, com direito a palhinha de seu novo CD (sim, ele também canta), recebeu o blog para uma entrevista exclusiva na quinta-feira, no hotel simples em que ficou hospedado durante o congresso evangélico. Falou sobre política, sexo e religião e admitiu: quer ser presidente do Brasil.
Leia a entrevista completa:
O senhor tem planos de abrir uma sede da Catedral de Avivamento em SC?
Fundei esse ministério há oito anos por uma demanda que faltava no interior de São Paulo. Minha igreja, a Assembleia de Deus, é bem ortodoxa e respeitada, são mais de 100 anos no país. E nos interiores o povo ainda é muito fechado em questão de uso e costumes. Existem lugares em que as mulheres não cortam o cabelo, não passam maquiagem, não colocam calça comprida, os meninos não jogam bola, tem pessoas que não assistem televisão. Essa é uma doutrina antiga da igreja. Eu moro em uma cidade pequena, de 30 mil habitantes. Saio dessa cidade pro mundo, e de repente encontro minha esposa e minhas filhas com dificuldade de entender que, quando vou para os eventos e trago as filmagens, as mulheres são mais bonitas, porque elas se cuidam melhor. Eu tive problemas dentro de casa. Juntamos um grupo de pessoas que pensavam como eu, pedi a benção do meu pastor e fundei  o ministério. Nesses últimos oito anos temos cerca de 15 igrejas pequenas. Foi só pra atender aquele grupo ali. Se eu abrisse as portas, já tive mais de duas mil denominações querendo filiar-se a mim.
Houve resistência?
E muita. Fui chamado de rebelde, de menino de calça curta, de teólogo de botequim. Superamos isso a duras provas, ainda há uma ala muito resistente da igreja, mas quando o assunto é fé, são valores, não mudamos em nada. A doutrina é única. Mas foi bom o embate, até porque as pessoas que me acham extremamente radical vão ver que dentro da nossa igreja eu sou chamado de liberal. Um liberal ponderado, tá? Comedido.
O senhor escreve livros. Tem algum para ser lançado?
Está no prelo um, em que eu falo sobre o poder dos sonhos e como superar as crises. Acho que fui o homem que viveu talvez a maior turbulência política do nosso país e sobrevivi. Dei entrevista para mais de 40 emissoras fora do Brasil acerca do pensamento conservador. Depois de tudo isso, voltar pro parlamento com o dobro de votos é porque aconteceu algum fenômeno. Quero contar isso em livros.
O brasileiro é conservador?
O Brasil, na sua grande maioria, é conservador. Só que é feito de conservadores silenciosos. Talvez falte a eles oportunidade de ter vez e voz porque trabalham muito, porque têm que cuidar da sua família, porque não cuidam da vida dos outros. Como eles não têm tempo, não se envolvem. Mas as urnas provaram isso. Eu, Jair Bolsonaro, Celso Russomano, são três políticos de ala conservadora que tiveram uma votação expressiva. O que falta no país hoje, e eu acho que as pessoas buscam isso, são políticos de posicionamento. O político não pode ser maria-vai-com-as-outras, não pode ficar em cima do muro e chutar com os dois pés, não pode ser um político-prostituto, que se vende. Tem que saber o que quer ser, se um político ou um estadista. O político sacrifica o futuro pelo momento. Eu sempre quis ser estadista.
O senhor tem pretensões de ser presidente?
Que político não tem? Quem fala que não tem é mentiroso.  As eleições de 2014 mostraram um novo quadro, nós temos a maior bancada conservadora da história desde 1964.
Seu eleitorado é o conservador ou o evangélico?
Os dois. Represento aqueles que dizem – eu queria falar o que ele fala, mas não tenho voz. Virei porta-voz da liberdade de expressão, porque desafio qualquer pessoa a provar que sou intolerante, que tenho discurso de ódio ou que tenho feito ameaça a qualquer pessoa.
Por que o senhor é contra a união homoafetiva?
Ser contra ou não é uma questão de foro íntimo. Alguns projetos estão na Câmara dos Deputados há 20 anos e não são votados porque não há consenso. Porque o debate, mesmo sendo polêmico, não há acordo. Todo projeto que não tem acordo não é votado. Nunca passou pela Câmara o assunto da união homoafetiva. O que tá por trás de toda essa luta dos direitos dos homossexuais não é esse pano de fundo de coitadismo, de vitimismo. Isso é uma luta mundial que vem de cima pra baixo, é uma pressão da ONU. A princípio foi aprovada a união estável. Antes disso fui à tribuna e fui profeta: vai se aprovar a união estável, na sequência a união civil, e na sequencia vão querer a união religiosa. E essa começa a ferir direitos. Já acontece isso hoje em boa parte da Europa.
Essa diferenciação entre heterossexuais e homossexuais não vai contra o cristianismo?
Estou falando como deputado. Deputado não pode tocar em assunto de Bíblia.Como deputado meu livro de cabeceira é a Constituição Federal. O artigo 226, parágrafo 3, foi estuprado pela Suprema Corte do nosso país e ninguém fala nada. As pessoas não querem tocar nesse assunto. É um assunto nojento, que você vai debater com um grupo que não tem nada a perder.
Nojento?
Ninguém quer tocar no assunto da sexualidade. Isso é que falei de ser nojento, nada sobre preconceito, mas não é um assunto confortável. Mas tem que ser debatido, os homossexuais existem.  Sentei inúmeras vezes com a Marta Suplicy, que era relatora do projeto que criminalizava a homofobia, e eles são radicais. O texto deles diz que homofobia é preconceito. A pergunta que faço é como você mensura preconceito. Tenho hoje no STF processos só porque eu disse que sou contra o casamento gay.
Se o senhor fala como deputado, os direitos não são iguais perante a Constituição?
Já são garantidos. Mas a Constituição compreende o casamento, porque ele dá direitos, aposentadoria, pensionato, adoção de crianças. Só que o Estado quer alguma coisa em troca, a manutenção dele. Os pais deixam filhos, que deixam netos, que deixam bisnetos. Por isso a Constituição reconhece como união entra homem e mulher. Porque somente essas duas células podem gerar filhos. Dois homens não geram filhos, duas mulheres não geram filhos.
Mas adotam…
Aí partimos pro vitimismo.temos no país uma fila de 30 mil casais heteros esperando pra adotar. Tem cinco mil crianças na fila que não conseguem ser adotadas. Como você vai dar a essas crianças a falta do direito de crescer sem uma visão de um homem e uma mulher dentro de casa pra construção do seu caráter?
E isso é decisivo na construção do caráter de uma criança?
Sempre foi, desde que o mundo é mundo. Querem mudar isso agora. Acontece que eles não querem debater a problemática do assunto. A homossexualidade é um transtorno, não é doença. Até a história da cura gay foi uma maldade criada pela mídia, que são mestres em pinçar palavras e criar subtemas.
O senhor não propôs a cura gay?
Nunca. Não existe cura porque não é doença. É um transtorno, um fenômeno comportamental. A Organização Mundial da Saúde arrancou da categoria de doenças a homossexualidade por pressão do movimento gay internacional, porque ninguém aguenta debater com eles. Mas continua dizendo que é um transtorno. Se é transtorno, tem que ser estudado. Se há uma orientação sexual, pode haver uma desorientação sexual. Como pode haver uma reorientação sexual. Os ex-gays existem. Propus uma audiência e comecei a receber vídeos do Brasil inteiro, de meninos e meninas que casaram, têm filhos, que nunca foram bissexuais.
E o que o senhor vai propor com essa audiência?
Não sei, quero ouvi-los.
A cura gay?
Não existe cura porque não é doença. Se a imprensa soubesse a maldade que fabrica ao falar em cura gay… expõe a gente ao ridículo, como se eu fosse um deputado da idade média, e eu não sou isso. Se me perguntar o que acho da união estável, acho constitucional, duas pessoas constroem um patrimônio juntas, nada mais justo do que terem direitos. Só que o problema é que da união estável vem a união civil. O gayzismo, e não falo de homossexuais, falo de homofascistas, dessa turma que fica na internet criando o ódio. Esse pessoal tem que ser brecado.
O senhor é a favor da redução da maioridade penal?
Em gênero, número e grau. Precisa ser aprovada urgentemente. Não podemos usar outros problemas para evitar que se faça justiça. Os esquerdistas, os esquerdopatas, vão dizer que se diminuir não temos lugar pra colocar. Então que o Estado se vire, que crie condições. O Estado tem uma máquina pública com muito dinheiro, que vem abastecendo falcatruas.
Enquanto religioso, o senhor acredita que a prisão é a solução?
A correção é o melhor caminho.
Tem que ser na prisão?
A pessoa tem que começar a ser punida a partir de uma certa idade. Nosso país é paternalista com os presidiários e com a mão de ferro em cima daqueles que querem fazer justiça, como os policiais. Isso é um pensamento de esquerda. Ontem (na quarta-feira) tivemos aquele problema no Paraná, a polícia como se fosse um monstro da história. Em São Paulo no ano passado mataram mais de 15 policiais e ninguém fala nada. Aí morre um preso, vem a Comissão de Direitos Humanos. A redução da maioridade penal é um clamor das ruas. No Brasil o crime compensa. A pessoa foi presa, tem filhos, a esposa entra no Justiça e o Estado dá o auxílio reclusão.
A esposa tem culpa no crime do marido?
O Estado tem que pagar por isso? E a vítima do cidadão que matou?
O senhor sabe que há prerrogativa legal para que o dinheiro vá para a vítima?
O cidadão matou meu filho, eu sou velho, meu filho cuidava de mim. O Estado não dá uma bolsa pra mim. Mas dá uma bolsa pra esposa do bandido. Então tá tudo virado.
Isso não vai contra o seu discurso como pastor? Contra sua formação cristã?
Não, eu prego sobre o perdão. O pecado é o pecado. A lei da semeadura é cristã também, quem planta colhe. O perdão é incondicional, é liberado, tanto que fazemos trabalhos em presídio, mas deixamos ele (o presidiário) saber que errou. O cidadão que não tem consciência de que errou vai viver continuando a cometer os mesmos crimes.
Essas suas posições causam problema quando o senhor prega em presídios?
Não, o preso brasileiro sabe que nosso país é paternalista.
No ano passado, um pouco antes do Congresso de Gideões, o senhor concedeu uma entrevista polêmica à revista Playboy. Inclusive disse que já cheirou cocaína. Se arrependeu dessa afirmação?
Não, mostrei que Cristo liberta. Foi um recado que mandei pras autoridades, pros governos de esquerda que lutam pra fechar as unidades terapêuticas porque 90% das casas são religiosas e eles dizem que fazem uma lavagem cerebral na pessoa. Desafio o governo a me mostrar uma pessoa que tenha sido curada por outra via que não tenha sido a igreja.
O senhor experimentou ou foi usuário?
Fui usuário por mais de um ano e Jesus me libertou.
Um vídeo que mostra o senhor pedindo a senha do cartão de crédito de um fiel, feito aqui no Congresso de Gideões, viralizou na internet. Isso não é mercantilizar a fé?
A maldade das pessoas não tem limite. Existe mercantilização quando um programa de TV como o Teleton pede pras pessoas mandarem dinheiro pra ajudar uma pessoa, uma criança? Existe mercantilização quando o Criança Esperança deixa os telefones pras pessoas doarem dinheiro? Não. Era um evento missionário, cuidava de mais de mil e trezentas famílias. Os evangélicos sofrem preconceito, não temos ajuda de ninguém. Aquele evento era pra angariar fundos. Uma pessoa, na hora da coleta das ofertas, jogou o cartão lá dentro. Três vezes eu chamei ela pra ir buscar. Li o nome da pessoa três vezes. O processo durou mais de uma hora, só que alguém pega só os últimos minutinhos e coloca pra fazer maldade. E eu fiz uma brincadeira, porque também temos senso de humor. Doar o cartão sem doar a senha não adianta, precisamos é da oferta pra ajudar as crianças. Vai perder sua benção, vai perder o milagre. Tanto é que todo mundo riu.
O senhor fala do preconceito contra os evangélicos, mas fez uma afirmação em relação aos católicos e à adoração de imagens, dizendo que era coisa de satanás?
Isso faz 20 anos. Havia uma rixa entre a igreja católica e a igreja evangélica. O padre falava na missa que os pastores são heréticos, são lobos travestidos de ovelhas, doutrinas de demônios, de enganadores. Eles atacavam nossa fé e a gente revidava. Só que revidava dentro da igreja, dentro de um culto. As pessoas pegam a fita, cortam um pedacinho e colocam como se fosse hoje, isso é maldade. Hoje eu não falaria, até porque caminhamos juntos. A bancada evangélica e a bancada católica caminham juntas.
Blog guarda sol RBS 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Repressão aos professores no Paraná, foi truculenta e covarde

Nota da Associação Juízes para a Democracia A Associação Juízes para a Democracia, entidade não governamental e sem fins corporativos, que tem dentre suas finalidades o respeito absoluto e incondicional aos valores jurídicos próprios do Estado Democrático de Direito, vem a público, a propósito dos lamentáveis fatos que se passaram na cidade de Curitiba no último dia 29 de abril de 2015, manifestar seu apoio aos professores paranaenses, nos seguintes termos:1. Os brasileiros assistiram estarrecidos, na referida data, a mais um covarde e truculento ataque do Estado a insatisfações populares manifestadas de forma republicana e democrática, tal como garantido na Constituição Federal. Tratou-se de reação ilegal e violenta, desta vez, inexplicavelmente, assacada contra integrantes de classe que deveria merecer o maior grau de deferência e respeito: os professores.2. Decerto que as injúrias físicas – que não foram poucas – infligidas aos professores, que ousaram, em continuidade à sua corajosa faina diária em salas de aula pela formação de cidadãos, lutar também nas ruas por direitos que deveriam lhes ser garantidos pelo Estado, não foram o aspecto mais nocivo dos acontecimentos.3. Decerto que o que mais calou fundo, no espírito de cada um dos manifestantes, foi a simbologia da resposta do Estado às reivindicações dos professores: o obscurantismo, trazido à tona pela utilização de armas, preponderando, à força, sobre as luzes, representadas pelos professores e suas convicções; a repressão, representada pela intolerância ao debate, às manifestações, ao povo nas ruas, sobressaindo-se, a marretadas, à liberdade.4. Importante relembrar que as manifestações individuais ou coletivas, em vias públicas contra medidas ou projetos governamentais, assim como o direito de greve, configuram direitos previstos nos artigos 5o, incisos IV e XVI e 9º, da Constituição da Federal.5. Sendo assim, às forças policiais cumpre, por dever constitucional de ofício, assegurar a realização de manifestações públicas e, ao governo, dialogar com a sociedade civil, não sendo balas de borracha ou bombas de efeito moral, respostas legítimas para a discordância popular.6. A violenta ação do governo paranaense contra os professores configura mais um capítulo do recrudescimento da repressão oficial em plena vigência de Constituição Federal que consagra, como fundamento do Estado brasileiro, o pluralismo político (art. 1o, V). A lógica do eficientismo gerencial para o suposto enfrentamento de questões fiscais tem prevalecido sobre o direito da população de externar suas divergências no espaço público, de forma lamentavelmente idêntica ao que ocorria sob a égide da ditadura civil-militar que vigorou após o Golpe de 1964.7. A construção de um Estado Democrático de Direito, na forma projetada pela Constituição Federal de 1988, requer o abandono definitivo de práticas policiais para o enfrentamento da questão social.  O dialogo objetivando a efetivação de direitos é a resposta legítima que se espera de todos os governos sob a égide democrática.São Paulo, 30 de abril de 2015.André Augusto Salvador Bezerra

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Resposta de uma Juíza do trabalho, sobre o post de um jornalista do jornal Santa Catarina, defendendo a PEC da terceirização

Caro Jornalista Moacir Pereira!
Sou Magistrada do Trabalho há oito anos, e nesta condição já trabalhei nos Estados de Paraná e em Santa Catarina em mais de 10 cidades. Posso lhe dizer com conhecimento de causa os efeitos nefastos que a terceirização acarreta no dia a dia dos trabalhadores e da sociedade.
O primeiro deles é a falta de identificação do trabalhador com a empresa, já que o seu posto de trabalho é rotativo e com um terceiro, que não é seu empregador. Em segundo lugar, gera a precarização das relações de trabalho, já que os terceirizados recebem salários e benefícios comprovadamente menores (cerca de 40%) dos trabalhadores que exercem função similar na empresa tomadora.
Além disso, os maiores índices de acidentes de trabalho estão com os trabalhadores terceirizados (cerca de cinco vezes maiores dos trabalhadores com vínculo direto), pois a vinculação fática não é com o seu empregador e sim com um terceiro, que não fornece treinamento, nem condições adequadas de segurança e medicina do trabalho.
Para exemplificar, desde que cheguei a esta cidade há um ano, todos os acidentes de trabalho que analisei no ramo da construção civil ocorreram com trabalhadores terceirizados e nenhum dos reclamados assume a responsabilidade. O empregador não fornece equipamentos mínimos de segurança como cintos e protetores auriculares e a construtora, dona da obra não fiscaliza alegando que não é seu dever. O resultado são trabalhadores mutilados e doentes, sendo todos custeados pelo sistema público de saúde e pelo INSS.
Em relação ao setor público, aí estão os maiores problemas. Pra teu conhecimento, os funcionários terceirizados que trabalhavam na fiscalização com os detectores de metais no Aeroporto (indicados na tua coluna) foram dispensados em 2013 em razão da rescisão do contrato da empresa prestadora com a Infraero e ninguém recebeu as verbas rescisórias. Nas audiências que realizo habitualmente sobre esse tema, é comovente ver esses trabalhadores necessitados tendo que enfrentar um calvário jurídico para receberem verbas para suprirem suas necessidades mais básicas, como a compra de alimentos.
O resultado da terceirização no setor público normalmente é este: a empresa prestadora de serviços “some” e o Ente Público tenta se valer da Lei de Licitações para se eximir da sua responsabilidade para não pagar os créditos trabalhistas e o trabalhador fica “a ver navios”. Esta mesma situação, vejo diariamente trabalhadores que prestam serviços para a Casan, Celesc, União, Estado e outros entes estatais que ficam anos para tentar receber seus direitos.
Outro enfoque importante: cada vez mais os bancos terceirizam parte das suas atividades (serviços) para não aplicarem as normas coletivas e direitos arduamente conquistados pela categoria dos bancários.
No entanto, esse trabalhador terceirizado que um dia trabalha num banco, no dia seguinte no outro e que percebe um parco salário pode ter acesso aos nossos dados bancários. Pergunto: Qual cliente gostaria que um trabalhador terceirizado que não tem vínculo com o banco e que não tem nenhuma expectativa de se inserir na instituição (já que é empregado de outra empresa) tivesse acesso aos dados da sua contra bancária, como: extratos, endereços, empréstimos, aplicações, etc.?
Realmente, a terceirização é uma realidade, mas os efeitos são esses.
Vivemos num mundo capitalista. Se a terceirização vai trazer empregos, vai ser a custo de outro desemprego ou então, de um trabalhador dispensado para se contratar dois terceirizados com o salário que era pago para um. Até hoje nunca vi milagre ocorrer: Se uma empresa comporta 500 trabalhadores na sua gestão, vão continuar sendo os mesmos 500 trabalhadores, sendo dispensados para contratar o equivalente com terceirizados com salários mais baixos.
Gostaria de lhe fazer um convite: venha alguns dias assistir audiências no Foro trabalhista de Florianópolis na Avenida Beira Mar Norte, n. 1588 (1º e 2º andar) e ver quais são os resultados na prática da terceirização. Minha lotação é na 7ª Vara do Trabalho e será um grande prazer recebê-lo como também de meus colegas.
Tenho certeza que a sua opinião não será mais a mesma colocada no dia de hoje na sua coluna, pois só se conhece os efeitos da relação de trabalho conhecendo a realidade.
Zelaide de Souza Philippi
Juíza do Trabalho

segunda-feira, 13 de abril de 2015